sábado, setembro 23, 2017

Mitos históricos sobre a «infância feliz soviética» (6 fotos)

Muitas pessoas, incluindo as que nasceram após 1991 e nunca estiveram na União Soviética acreditam na mitologia da “infância feliz soviética”. Que reza que na URSS, as crianças apenas liam bons livros, comiam alimentos saudáveis, eram criados pelas educadoras gentis e atenciosas em creches e jardins-de-infância e professores nas escolas. “Tudo era estatal, tudo era controlado, o estado não faria coisas más aos seus cidadãos mais pequenos!”, acreditam os crédulos. A realidade era bem diferente...

A postagem de hoje reúne os principais mitos da “infância feliz soviética”.

1. Mito dos «excelente creches e jardins-de-infância»

Quase todo o tempo da sua existência, a União Soviética estava orgulhosa de possuir mais jardins-de-infância do que os Estados Unidos – na propaganda soviética isso era mais uma prova provada de que os EUA estão “condenados pela história”.

Nos EUA, um dois pais que trabalhava (na maioria das vezes o pai) poderia sustentar a sua família. Na União Soviética, ambos os pais tinham que trabalhar para conseguir alimentar a família e não serem considerados como “improdutivos” (ausência do emprego formal era punida na União Soviética de forma criminal), a licença de maternidade estendida apenas à mãe (com a duração de um ano) foi introduzida na URSS apenas em 1968 [mais tarde alargada aos dois, e à partir de 1990 aos três anos, no entanto no terceiro ano sem direito à nenhum subsídio estatal] – essa era a razão real da existência na URSS de uma grande quantidade de creches e jardins-de-infância.
A qualidade. Como em todas as outras esferas, nos jardins-de-infância soviéticos floresciam espírito oficioso e a coerção. Por alguns “delitos” inocentes as crianças, em forma de punição podiam ficar num canto só de cuecas [ou mesmo serem obrigadas à desfilarem nus], costumavam levar as palmadas – na URSS, o castigo corporal era considerado como norma. Muitas vezes, a criança nem percebia a razão da sua punição, mas estava se acostumado com a ideia de que “o poder é sempre mais forte” e “se deve obedecer”.

A “coletivização” puramente soviética começava já no jardim-de-infância, as crianças ainda bastante livres e diferentes, eram obrigadas à participar nos jogos e danças coletivas, cantar em coro, marchar em fileiras, etc. – acostumar-se à ideia de que as aspirações e desejos individuais são muito más/ruins, mas a caminhada em grupo é ótima. O menor pensamento próprio era castigado, a titia gorducha poderia bater a criança ao qualquer momento, e a criança era endoutrinada na fé de que o “avô Lenine” era um génio de todos os tempos e nações e que ninguém o poderia sequer superar.

2. Mito sobre «excelente alimentação para as crianças, sem OGM!»

A comida soviética era “especialmente boa” (formada por salsichas, cereais, batatas, leite diluído e galinhas azuis), mas os alimentos das crianças merecem atenção especial. Muitas crianças na URSS foram criadas sem o leite materno – no sistema pré-natal soviético isso era considerado uma norma. Para saber por que isso é mau, devem usar a pesquisa no Google, o tema é longo demais.

Da maternidade, a criança vinha para casa, onde não tinha comida normal para bebés. As mães soviéticas usavam o leite diluído, semolina e uma moedora para cozinhar algo que fosse adequado para a nutrição do bebê. De acordo com a OMS, na década de 1970 (a época razoavelmente abastada do Brejnev), cerca de 70% dos bebés soviéticos eram obesos por causa de sua nutrição quase exclusivamente de carboidratos. Mas em contrapartida a URSS construía os mísseis Satã, os satélites e no campo do balé, superavam os EUA de longe!
Depois a criança entrava na creche ou no jardim-de-infância (quase sempre, veja o mito № 1), onde a comida era, em geral, horrível – mesmo se “de acordo com as regras”, deveria ser razoavelmente boa. As cozinheiras das cantinas das creches, jardins-de-infância e das escolas soviéticas eram quase sempre muito gordas. Toda a equipa roubava os alimentos – desde a cozinheira chefe até pessoal do património, a sua posição na hierarquia significava apenas a qualidade e quantidade daquilo que podiam roubar. O que restava às crianças? As crianças tinham que comer as papas e sopas aguadas e desagradáveis, as almôndegas feitas de pão e alho, as massas cozidas ao estado de pasta – a comida provocava em muitas delas a vontade de vomitar (literalmente).

3. Mito sobre a «excelente educação e as escolas soviéticas»

O mito da “excelente educação soviética” – talvez é um dos mais persistentes e prejudiciais. Do mesmo modo que no jardim-de-infância, a escola soviética imponha os “valores corporativos” e ensinava a marchar em formação. Todos deviam usar o mesmo uniforme [as crianças do 1º e 2º anos tinham que possuir a insígnia com o retrato do Lenine, os mais velhos usavam a gravata vermelha do pioneiro], passando por um determinado “rito de iniciação”. A educação era construída na base da coerção – os canhotos eram obrigados a escrever com a mãe direita, as crianças talentosas e dotadas, eram frequentemente “picadas” pelas professoras: “seja como todos, não se destaque, não se mostre!” O massacre das “ovelhas brancas” também era popular, uma turma composta por alunos de notas médias, encorajados e controlados por uma gangue de 3-4 alunos de notas péssimos, podia assediar e tratar mal os bons alunos considerados “nerd” – isto é, aqueles que queriam e poderiam aprender, liam muito, etc. Essa situação não era a regra geral – mas acontecia com alguma frequência e com a total conivência de professores.
O próprio sistema de educação na União Soviética era pensado em termo dos “indicadores”. Ninguém se importava em dar à criança um conhecimento fundamental e principalmente ensinar-lhe a pensar livremente – a principal exigência era que aluno memorize a matéria, a reproduza e obtenha uma boa nota, o indicador do “sucesso da turma” era a ausência de estudantes de notas abaixo de 10 valores (de 0 à 20) e não a presença de mentes dotadas.

Em geral, crianças frequentemente saiam da escola soviética com um conhecimento bastante medíocre, mas com um sentimento incutido (muitas vezes pelo resto de suas vidas), de que se deveria “obedecer o coletivo” e não discutir com as autoridades.

4. Mito sobre a «liberdade das crianças na URSS»

Os ideólogos soviéticos daquela época propalavam aos quatro ventos que as crianças na URSS são “especialmente livres”, diziam que apenas no sistema soviético isso se tornou possível, etc.

Na verdade, a infância da criança soviética estava cheia de real trabalho forçado no pleno sentido da palavra. Começando com o jardim-de-infância, as crianças ficavam “de plantão” – OBRIGADAS à realizar, de forma rotativa, algum tipo de trabalho de caserna, por exemplo, limpando a sala, lavando janelas, trabalhando na horta escolar, etc. Os “dissidentes” eram submetidos à todo tipo de ostracismo, tanto por parte do “poder” (professores, educadores), quanto dentro do coletivo.
Além disso, considerava-se como a “norma” enviar as crianças para a safra de batata [na Belarus], ou para apanha de algodão na Ásia Central – onde, com ajuda do trabalho infantil forçado eram alcançados os ótimos resultados dos “kolkhozes milionários”. Apanha de algodão era um trabalho pesadíssimo de arrastar sacos de 20 quilogramas e apanhar manualmente o algodão, pulverizado com desfibrilantes e dessecantes. Desses trabalhos, as crianças frequentemente voltavam doentes, estudando apenas metade do ano letivo. Este trabalho também não era pago, pois era considerado como “um dever do pioneiro”.

5. Mito sobre uma «segurança especial da infância soviética»

Um outro muito bastante popular é sobre alegada “segurança especial” da infância soviética – supostamente, naquela época “as portas não eram trancadas, todas as pessoas eram como irmãos!”


[Por exemplo, em 1980, a URSS ocupava o 5° lugar no mundo em número dos assassinatos, superado apenas por países como Colômbia, que naquela década estava na auge da guerra contra a guerrilha marxista e o narcotráfico. A prevalência dos assassinatos na República Socialista Federativa Soviética da Rússia (RSFSR) era maior do que a média soviética. Se em 1970 na RSFS da Rússia se cometeram 9,8 mil assassinatos, em 1975 já eram 14.000 e em 1980 – 18.000. Em média, em 1989 na URSS eram assassinados (por 100.000 habitantes) as 12,4 pessoas, enquanto na França – 1,1; na Alemanha – 1,0; na Inglaterra – 1,04 e na Irlanda do Norte, onde decorria a luta armada entre IRA, grupos paramilitares protestantes e as forças policiais, este indício era de apenas 4,72.]

Aos crentes neste mito, recomendamos verificar as estatísticas soviéticas sobre roubos e banditismo – os números eram bastante altos, mesmo de acordo com os dados oficiais. Além disso, na URSS eram ativos diversos maníacos e assassinos em série [pelo menos 48 casos conhecidos] – como Vladimir Ionessian “Mosgaz” ou Andrei Chikatilo [ativo entre 1978 e 1990, assassino confesso de pelo menos 55 pessoas, apontado pela polícia como responsável de 65 mortes: 21 rapazes com idades entre 7 à 16 anos; 14 meninas de 9 à 17 anos e 17 moças e mulheres]. Todos estes terríveis monstros em forma humana nasceram exatamente na URSS e atuavam sob o domínio do sistema soviético, vários deles eram membros do PCUS ou da juventude comunista – Komsomol. A pedofilia era vista na URSS de forma bastante tolerante – um titio beliscou a menina no rabo, o que há de errado disso?! Os casos de estupro de crianças também não eram muito raros – muitas vezes isso acontecia na safra da tal “batata”, onde as meninas eram enviadas pelas suas escolas.
Neste ponto também precisa abordar uma outra questão – a existência do ambiente seguro para a criança. Por causa da habitação soviética superlotada e apertada, as crianças passavam a maior parte do seu tempo livre na rua. Nas décadas de 1970 – 1990, entre as crianças na URSS eram bastante populares os “entretenimentos soviéticos”, como o lançamento de embalagens de dezodorisantes ao fogo, uso de fisgas e outros engenhos que disparavam os parafusos, brincadeiras com carboneto, foguetes de salitre e passeios nos telhados e obras de constrição civil.

É preciso ser bastante idiota para afirmar que as crianças atuais que passam mais tempo no computador e no passatempo civilizado ativo, como ciclismo ou patins em linha, são de alguma forma “privadas” em algo, em comparação com as crianças soviéticas. A infância presente é muito mais interessante e mais segura do que a infância na URSS.

São alguns mitos sobre a infância na URSS. [Os nossos leitores podem descrever a sua própria infância, no Brasil, em Portugal ou em qualquer outra parte do mundo.] É sempre interessante.

Fotos @GettyImages | Texto Maxim Mirovich e [@Ucrânia em África]

sexta-feira, setembro 22, 2017

Monumento do Kalashnikov – o serralheiro do Hugo Schmeisser

No recém-inaugurado em Moscovo monumento do Mikhail Kalashnikov, foi gravado o esquema da espingarda automática alemã MKb.42, usada pelo Wehrmacht no decorrer da II Guerra Mundial.
Neste momento a blogosfera cirílica debate a questão: essa revelação foi feita de propósito, para mostrar quem é o verdadeiro criador do AK-47 ou foi algum habitual erro técnico, ao estilo “queriam de melhor maneira e ficou como sempre”...

StG-44 ou MKb.42?

Em 1942 duas espingardas automáticas participaram no concurso de fornecimento de uma nova arma ao Wehrmacht: MKb.42(H) fabricado pela empresa C. G. Haenel (produto do Hugo Schmeisser) e MKb.42(W) da empresa Walter. MKb significa machinecarbine ou seja carabina automática. Após os testes na linha de frente no inverno de 1942-43 em Estalinegrado, os militares alemães queriam uma arma produzida pelo Schmeisser, mas com o sistema de gatilho de Walter. Assim foi feito.
StG-44: no total foram produzidas 425.000 unidades
(menos de 2% de todas as armas ligeiras produzidas no 3º Reich)
No entanto, Hitler estava convencidíssimo de que a nova carabina que usaria um outro cartucho será prejudicial ao Wehrmacht, pois ficariam, por usar, os bilhões de cartuchos 7,92 x 57. Por isso, para enganar Hitler, a nova arma foi lançada em série sob o índice MP-43, o que significa maschinenpistole, a máquina-pistola, isto é, a metralhadora. Em 1944, já com algumas mudanças estéticas, a arma foi produzida em série com o índice MP-44. E no verão do mesmo ano, para propósitos de propaganda, arma simplesmente recebeu o nome de Sturmgewehr StG-44.

StG-44 na URSS
Em agosto de 1945, o Exército Vermelho montou 50 unidades de StG-44, usando as peças de stock por si capturado, para inspecionar o design da arma. As autoridades armeiras soviéticas também estavam na posse de 10.785 folhas de desenhos técnicos, confiscados pelos soviéticos para a pesquisa. Em outubro de 1945, Hugo Schmeisser foi praticamente forçado à se mudar para a URSS, onde foi instruído para continuar o desenvolvimento de novas armas, incluindo o AK-47.


O AK-47 soviético combinou e usou o melhor de ambas as armas alemãs, do MKb.42(W) – o sistema de circuito de descarga de gás, do MKb.42(H) – o layout geral, algumas peças-chave e todo o sistema de estampagem de metal. O produto final era “limado” pelos engenheiros alemães na cidade de Izhevsk, usando as máquinas e equipamentos industriais retirados, em forma de contribuição, pela URSS na Alemanha em 1945-46.

Blogueiro

Na imagem e foto em baixo podemos a pistola-metralhadora soviética AK-SMG 42, uma pistola automática, com um obturador semilivre, alegadamente criada pelo Kalashnikov em 1942.
Eis como a historiografia oficial soviética / russa descreve a história da criação de arma: Permanecendo no hospital após o ferimento, ao 1º sargento Kalashnikov nasceu a ideia de criar o seu próprio modelo de arma automática. Ele começou a fazer esboços e desenhos, comparando e analisando suas próprias impressões sobre os combates [a sua especialidade militar no RKKA era operador de blindados], as opiniões dos camaradas de armas, os conteúdos dos livros da biblioteca do hospital [Sic!]. Também foram úteis os conselhos de um tenente fuzileiro naval, que antes da II G.M. trabalhou em algum [Sic!] instituto de pesquisa científica, que conhecia bem os sistemas de armas de pequena porte e a história de sua criação [fonte].
E qual foi avaliação dos engenheiros armeiros soviéticos dessa mesma arma, praticamente um protótipo de AK-47?
A pistola-metralhadora Kalashnikov é mais complicada e mais cara no seu fabrico do que a PPSh-41 e PPS, e requer o uso de operações de fresagem, lentas e [do material] muito escasso. Portanto, apesar de muitas partes positivas (pequeno peso, pequeno comprimento, capacidade de fazer o tiro único, combinação bem sucedida do sistema de mudança do regime de fogo e de segurança, uma vareta compacta, etc.), atualmente na sua forma não representa interesse para indústria [idem].

Até que em dezembro de 1946 na URSS começa trabalhar Hugo Schmeisser.

quinta-feira, setembro 21, 2017

Cinema europeu: “Easy: uma viagem fácil-fácil”

A co-produção italiano-ucraniana Easy (“Easy – Un viaggio facile facile”), arrecadou quase 300.000 dólares nas primeiras 3 semanas da sua estreia mundial. Filme, produzido com apoio financeiro maioritário ucraniano (58%), já foi vendido à Turquia e será lançado na China em novembro de 2017 na plataforma VOD.
Ao mesmo tempo, após a sua estreia no festival de Locarno, em 25 de setembro Easy será demonstrado no Festival dʼAnnecy na França e em outubro no Festival do Cinema Europeu na China, com demonstrações em cinco cidades daquele país. A película continua sendo exibida nos cinemas da Itália e da Ucrânia.
O quarentão Isidoro, conhecido por todos como Easy, é um ex-corredor vitorioso do go-kart, em profunda depressão crónica após ter ficado à um passo de se tornar um piloto de Fórmula-1. Ele vive com a mãe, joga “PlayStation” e não possui nenhuma esperança de melhorar a sua vida. Para ajudá-lo, o seu irmão Filo lhe encomenda um trabalho “muito fácil”, de levar o caixão do falecido emigrante ucraniano Taras à Ucrânia, para que este possa ser sepultado na sua terra natal. A partir daqui começa uma aventura na estrada, cheia de risos e sentimentos, uma longa jornada através das emoções e de uma Ucrânia épica e idealista, país visto como um paraíso perdido da Europa, país dos anjos que necessitam da nossa ajuda.
Dirigido pelo realizador italiano Andrea Magnani, Easy conta com Nicola Nocella no papel principal, ao seu lado aparecem duas estrelas do cinema italiano Barbara Bouchet e Libero De Rienzo (irmão Filo), diversos atores ucranianos, entre eles Ostap Stupka.

Ler mais sobre o filme em italiano.

Blogueiro: o filme, muito provavelmente, não ficará na história do cinema mundial, mas é uma comédia bastante bem conseguida, com a qualidade e profundidade acima das habituais comédias europeias, ou mesmo americanas do género.
Faça click para entrar na página oficial do filme

Morgan Freeman: “Estamos em guerra com a Rússia”

O famoso e influente ator afro-americano, Morgan Freeman, gravou um vídeo em que exorta defender os EUA da ameaça russa. A declaração foi divulgada por uma ONG recém-criada, Committe to Investigate Russia (Comité para Investigar a Rússia).

«Formos atacados. Estamos em guerra», — começa explicar Freeman. Depois ele conta a história do ex-espião do KGB que está com a raiva por causa do colapso do seu país [URSS] e então desenvolve um plano de vingança. “Aproveitando o caos ao seu redor, ele sube pelos degrãos da hierarquia na Rússia pós-soviética e se torna presidente. Ele estabelece um regime autoritário e após disso olha ao seu inimigo jurado – os Estados Unidos da América”.

“Como um verdadeiro agente do KGB, o que ele é, ele secretamente usa tecnologias cibernéticas para atacar os países democráticos ao redor do mundo. Usando meios de comunicação de massa para espalhar propaganda e informações falsas, ele convence os membros das sociedades democráticas à não confiar em sua própria mídia, nos seus mecanismos políticos e até mesmo nos seus vizinhos. E ele consegue isso”, conclui a sua história Morgan Freeman, explicando que tudo isso não é um guia cinematográfico.

“Este espião é Vladimir Putin”, diz Freeman:

Bónus
A embaixada dos EUA na Ucrânia recorda aos cidadãos russos que têm dificuldade de obter o visto americano na Rússia (neste momento a espera média do visto de negócios já é de 89 dias), que podem pedir o visto na embaixada dos EUA na Ucrânia. Para isso não é preciso ser residente na Ucrânia, mas é absolutamente necessário entregar os documentos e receber o visto pessoalmente em Kyiv.

À partir de 1 de janeiro de 2018 todos os cidadãos russos para visitar Ucrânia vão necessitar do passaporte biométrico e preencher, antecipadamente, um questionário; qualquer visita ilegal à Crimeia (fora dos postos de controlo terrestres ucranianos) significará a recusa imediata da entrada do cidadão na Ucrânia.

quarta-feira, setembro 20, 2017

Quem esconde os carrascos estalinistas e o seu chefe?

Um tribunal de Moscovo recusou novo pedido da família de Raoul Wallenberg, diplomata sueco que salvou do Holocausto dezenas de milhares de judeus, de acesso à documentação sobre o seu destino na URSS.

por: José Milhazes (Observador.pt)

Oficialmente, a polícia política soviética KGB desapareceu em 1991 com o fim da União da URSS, mas as suas metástases russas: FSB (Serviço Federal de Segurança da Rússia) continuam a ditar as regras de jogo à justiça. Pouco parece ter mudado, por exemplo, na defesa dos carrascos estalinistas
Raoul Wallengerg
O Tribunal do Bairro Meschanski de Moscovo recusou, no dia 19 de Setembro, mais um pedido da família de Raoul Wallengerg, diplomata sueco que salvou do Holocausto dezenas de milhares de judeus húngaros e foi raptado pelos serviços secretos soviéticos em Budapeste, em 1945, de acesso à documentação sobre o seu destino na União Soviética.

Depois de cerca de setenta anos após esse rapto e o de Vilmos Langfelder, motorista de Wallenberg, o citado tribunal concordou com os argumentos apresentados pelos advogados do FSB que insistem em afirmar que já foi aberto o acesso a alguns documentos, mas não se pode publicar outros porque eles “contêm informação sobre outras pessoas”.

Marie Dupuy, sobrinha do diplomata sueco, considera que “há várias dezenas de anos que [os serviços secretos russos] andam a contar contos de fadas aos parentes de Wallenberg de que não há nenhuns documentos”, frisando que isso não corresponde à realidade e que os documentos que foram revelados aos historiadores tinham sido sujeitos a censura e que parte das folhas do processo foram arrancadas.

As circunstâncias da morte de Wallenberg continuam a ser um mistério. Em Agosto de 1947, Andrei Vychinski, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da URSS e uma das figuras mais tenebrosas da “justiça estalinista”, declarou oficialmente de que Wallenberg não se encontra na União Soviética e que as autoridades de Moscovo nada sabiam sobre o seu paradeiro.

Mas, em Fevereiro de 1957, após numerosas insistências das autoridades suecas, o Governo soviético de Nikita Khruschov informou que Raoul Wallenberg teria falecido de um ataque cardíaco na prisão Lefort de Moscovo, a 17 de Julho de 1947.

Porém, esta versão está longe de ser aceite pelos historiadores, pois existem declarações de outros reclusos que afirmaram ter visto ou ouvido falar de Wallenberg nos anos de 1950 noutras prisões. As autoridades suecas, por exemplo, consideram que o diplomata foi assassinado numa prisão soviética a 31 de Julho de 1952.

Além disso, [o general] Ivan Serov, que dirigiu o KGB logo após a morte de Estaline, escreveu nos seus diários que Victor Abakumov, seu antecessor no cargo e um dos mais sangrentos carrascos do ditador soviético, reconheceu que a ordem para liquidar Wallenberg teria sido dada por José Estaline e por Viatcheslav Molotov, seu ministro dos Negócios Estrangeiros. Serov não tinha dúvidas de que o diplomata sueco teria sido liquidado em 1947.
O livro de memórias do general Serov
Após essas revelações, Marie Dupuy e o Raoul Wallenberg Research Initiative voltaram a tentar várias vezes, através dos tribunais russos, conseguir o acesso ao processo completo, sem censura, a fim de saberem o destino do diplomata e do seu motorista, mas todas as tentativas esbarram no secretismo do FSB russo.

“O destino de Wallenberg é uma das maiores mistificações na História da Rússia. Os documentos que os familiares de Wallenberg exigem já têm 70 anos e o acesso a eles deve ser permitido”, defendeu o advogado Ivan Pavlov, em declarações à agência russa “Interfax”.

O mais estranho é que o diplomata sueco e o seu motorista foram reabilitados em Dezembro de 2000 pela Procuradoria-Geral da Rússia, que os considerou “vítimas de repressão política”.

Quem é que o FSB esconde? Além dos criminosos que deram a ordem de assassinato: Estaline e Molotov, o Serviço Federal de Segurança da Rússia não quer revelar os nomes dos que prenderam e torturaram Wallenberg e Langfelder. Talvez algum dos carrascos ainda esteja vivo e seja considerado mais um “herói” da Grande Guerra Pátria, assim é chamada na Rússia a Segunda Guerra Mundial, e ainda tenha forças para contar aos seus netos os seus “feitos na frente de combate” contra o nazismo.

Afinal de contas, quem manda hoje na Rússia senão os antigos agentes do KGB, tendo como chefe máximo o coronel Vladimir Putin?

P.S. Tenho sido acusado de difamar constantemente a Rússia e o Presidente Putin por aqueles que consideram que a Rússia é Putin e vice-versa. Repito uma vez mais: trata-se de um erro grave semelhante associação. Além disso, sou também acusado de responsabilizar Putin por todos os males do seu país. Esta acusação é verdadeira, mas é preciso acrescentar que se o autocrata concentra nas suas mãos o poder absoluto, deve responder por tudo.

Exercícios militares Zapad-2017: o helicóptero Ka-52 dispara mísseis contra alvos civis e militares (fotos e vídeo)

No decorrer dos exercícios militares conjuntos Belarus-Rússia “Zapad-2017”, o helicóptero russo Ka-52 Alligator disparou três mísseis S-8, ferindo três pessoas e atingindo equipamentos civis e militares.
Em 16 de setembro de 2017, às 14h00, um par de helicópteros de ataque Ka-52, tripulados pelo tenente-coronel Smakhtin A. V. e 1º tenente Volchkov A. S.; descolaram do aeródromo Pushkin na região de Leninegrado na direção ao polígono de Luzhsky, para a realização de treino e demonstrações de fogo real. Às 14h47, à uma altitude de cerca de 50 metros, à uma velocidade de 200 km/h, os comandantes dos helicópteros receberam permissão da chefia dos exercícios “Zapad-2017” para entrar na rota de combate e se preparar aos disparos. Naquele momento, ocorreu o possível lançamento espontâneo não controlado de três mísseis não guiados ar-ar S-8, efetuado pelo aparelho do 1º tenente Volchkov. Os mísseis lançados explodiram em estreita proximidade com o público, composto por adidos militares, especialistas do complexo militar-industrial e jornalistas. Três pessoas ficaram feridas com gravidade em resultado da explosão, atingidos pelos estilhaços. Também foram danificados dois camiões/caminhões militares.
foto @Kommersant
Vídeo № 1 de aproximação do helicóptero:

Vídeo № 2 da abordagem dos helicópteros, filmado de um ângulo diferente:

Vídeo № 3, as consequências:

Vídeo № 4, vista do cockpit do helicóptero:

Numa análise detalhada dos materiais de vídeo disponíveis, os voluntários da comunidade OSINT internacional InformNaplm estabeleceram que na aproximação ao alvo, um dos helicópteros lançou três mísseis, e não um, como foi indicado na imprensa. Entre os camiões/caminhões danificados, identificou-se o veículo de controlo de drones do complexo RB-341B “Leer-3” (transmissor aerodinâmico de interferências nos terminais da comunicação celular do padrão GSM). O vídeo também mostra os seguintes equipamentos militares: contentores de transporte do drone “Orlan-10”, veículo de posto de comando P-230T, complexo de controlo e comunicação P-260T “Redut-2US”.

Clique na imagem para ampliar:
@InformNapalm (Creative Commons Attribution 4.0 International – CC BY 4.0)

terça-feira, setembro 19, 2017

Como a União Soviética fornecia o petróleo à Alemanha nazi em 1940 (15 fotos)

A série de fotos que mostra o transbordo do petróleo soviético das cisternas pertencentes aos caminhos-de-ferro da URSS às cisternas pertencentes à Alemanha nazi. Cidade de Przemyśl, a nova fronteira URSS-Alemanha nazi, 29 de fevereiro de 1940.
Curiosidade histórica: operário com certas semelhanças
faciais com Putin, está envolvido na operação
A largura dos trilhos entre URSS e Alemanha nazi era diferente, como tal, os comboios/trêm não podiam circular diretamente entre URSS e resto da Europa (excluindo a Finlândia). Como tal, em Przemyśl decorria a operação de transbordo, que assegurava ao Wehrmacht, ao Luftwaffe e ao Kriegsmarine, o petróleo tão necessário para manter a máquina de guerra nazi, em luta contra o resto da Europa.
A placa "Proibido fumar", em alemão, ucraniano e polaco/polonês

A Cronologia da Segunda Guerra Mundial em fevereiro de 1940 (apenas a Europa):

Outra curiosidade histórica: operário com certas semelhanças faciais com Hitler inspeciona a qualidade dos trabalhos
5/02/1940: A Grã-Bretanha e França decidem intervir na Noruega para cortar o comércio de minério de ferro em antecipação a uma ocupação alemã esperada e de forma ostensiva para abrir uma rota para ajudar a Finlândia. A operação está programada para começar em 20 de março.
9/02/1940: Erich von Manstein é colocado no comando do XXXVIII Corpo blindado alemão, removendo-o do planeamento da invasão da França.
10/02/1940: A União Soviética concorda em fornecer grãos e matérias-primas para a Alemanha em um novo tratado de comércio.
14/02/1940: O governo britânico pede voluntários para lutar na Finlândia.
15/02/1940: O exército soviético captura Summa, um importante ponto de defesa na Finlândia, rompendo assim a Linha Mannerheim.
: Hitler ordena a guerra submarina irrestrita.
16/02/1940: O contratorpedeiro britânico HMS Cossack força a remoção de 303 prisioneiros de guerra britânicos do petroleiro alemão Altmark em águas territoriais da Noruega neutra, o que provocou o Incidente do Altmark.
17/02/1940: Os finlandeses continuam a retirada da Linha Mannerheim.
: Manstein apresenta a Hitler seus planos para invadir a França através da floresta das Ardenas.
21/02/1940: O general alemão Nikolaus von Falkenhorst é colocado no comando da próxima invasão alemã da Noruega.

Os cogumelos de Chornobyl: beleza e perigo (15 fotos)

Na Ucrânia e Belarus começou a época de apanha de cogumelos. As páginas do Facebook estão cheias de fotos de cogumelos, as pessoas contam as suas histórias, mostram a colheita, se vangloriam pela quantidade, qualidade e exemplares mais vistosos. O blogueiro belaruso Maxim Mirovich visitou a zona de exclusão de Chornobyl e voltou vivo para mostrar o que viu.

Ele próprio, está contra a apanha de cogumelos “selvagens” em todo o território da Belarus (especialmente na sua parte sul). Em 1986, a contaminação por radiação afetou [uma parte da Ucrânia] e quase toda a Belarus sob a forma de precipitação radioativa, carregada de sais de radioisótopos césio-137 e estrôncio-90, bem como muitos elementos transuranianos, como plutónio e amerício. Mesmo os territórios que são considerados “limpos”, receberam pelo menos uma pequena dose de poluição. Os radioisótopos geralmente estão no solo, e se as árvores ou arbustos os absorvem em menor quantidade, então o musgo e os cogumelos são um acumulador absoluto de radiação – se houver, pelo menos, a menor partícula radioativa na zona, o micélio necessariamente o absorverá.

A postagem de hoje é dedicada aos cogumelos de Chornobyl e mostrará as evidências que confirmam: os cogumelos daquela região não são para apanhar, nem para comer.

01. O passeio pela zona de exclusão começa na cidade abandonada de Pripyat. Em muitos locais da cidade o dosímetro mostra o ar praticamente livre de radiação, mas tudo que cresce da terra, por exemplo, o musgo pode mostrar níveis excessivos bastante significativos.

02. Não foram encontrados os cogumelos em Pripyat, então aqui vêm as fotos inéditas que nunca foram publicadas antes: ponto de propaganda eleitoral soviético “agitpunkt” no centro cultural e recreativo “Energetik” (em maio de 1986 em Pripyat, deveriam se realizar algumas eleições locais):

03. A saída de emergência do centro “Energetik”, com um guarda-roupa público para guardar os paletós e casacos:

04. Cabines de observação da roda-gigante no parque da cidade. No parque também não se vêem cogumelos – todo o território é asfaltado.

05. Para observar os cogumelos, se viajou até o objeto “Chornobyl-2” – são antenas gigantes de 150 metros de altura – um objeto soviético secreto – o sistema de vigilância de radar além do horizonte, chamado “Duga”. Simplificando, essas antenas possibilitavam o rastreamento do lançamento de mísseis nucleares intercontinentais por parte do “inimigo provável”. Na entrada os viajantes podem ver os sinais rodoviários todos enferrujados:

06. Posto de controlo abandonado. Aqui estão os locais mais favoráveis ao crescimento dos cogumelos: mata seca, musgo e folhas de pinheiro em forma acicular.

07. As próprias antenas são um complexo gigante de várias centenas de metros de comprimento e 150 metros de altura.

08. Mais uma vez, o dosímetro mostra os níveis quase normais de radiação, medidas “no ar”, ultrapassando a norma apenas ligeiramente. O amador poderá considerar que é seguro apanhar os cogumelos aqui, mas isso não é verdade.

09. As antenas são uma estrutura de metal gigante, que em si é um acumulador de radiação. Em 1986, quando a poucos quilómetros do “Duga” ardia e fumegava o 4º reator da estação nuclear de Chornobyl, as antenas atraíram e absorveram bastantes radionuclídeos. Depois disso, as chuvas que caiam naquela área, por muitos anos lavavam o pó radioativo até ao solo.

10. Os locais mais ricos em cogumelos são os mesmos, onde, durante anos, caia a água das antenas:

11. É verdade – muitos cogumelos diferentes podem ser encontrados debaixo dos pinheiros, tanto comestíveis, como venenosos. Olha, que bonitão!

12. Um pequeno cogumelo. O dosímetro mostra 0,34 mSv/h (norma é 0,5 mSv/h), em vez de 0,15-0,20/h do ar.

13. Durante a sua vida curta, os cogumelos conseguem literalmente, “como uma esponja”, absorver todo o tipo de radionuclídeos. Um cogumelo um pouco maior – 0,35 mSv/h.

14. Um cogumelo maior ainda – 0,44 mSv/h.

15. Um cogumelo velho e respeitado, vários dias mais velho do que os seus coirmãos. “Sua Majestade” mostra quase 1,00 mSv/h. Não é mais um cogumelo, é um depósito de lixo radioativo sólido de baixo nível de emissão, na sua posse, o turista será barrado no desembarque no aeroporto, por exemplo. Tenham em mente que estas são apenas medições rápidas e feitas por um amador, com auxílio de um dosímetro doméstico. Se este cogumelo for esmagado e medido no laboratório em termos reais de raios beta e gama, a sua contaminação radioativa real será algumas vezes maior.
Como podem ver – com os indicadores de radiação de fundo (do ar) bastante “seguros”, os cogumelos absorvem, com sucesso, tudo o tipo de radioatividade que conseguem achar na natureza. Portanto, não recomendamos apanhar os cogumelos “selvagens” na zona de Chornobyl – melhor comprar um pacote no supermercado.

E vocês, queridos leitores do nosso blogue, costumam apanhar os cogumelos? O que depois fazem com eles?

Fotos e texto @Maxim Mirovich

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Peixe-gato gigantes perto da central nuclear de Chornobyl: